Esta semana saiu o "Da Frigideira" do Omelete falando sobre V de Vingança e como eu já disse anteriormente este vai ser um dos grandes filmes do ano sem sombra de dúvida.
Da frigideira: V de Vingança
"Na clássica seção Da Frigideira o Omelete escreve sobre filmes aguardados no calor da saída do cinema, sem pensar muito, ainda sob o efeito narcótico da telona e o crítico ainda está maquinando idéias, enquanto o fã já tem as suas na ponta da língua.
Confesso que entrei na seção de V de Vingança apreensivo. Afinal, o filme adapta para o cinema uma das minhas histórias em quadrinhos preferidas, o manifesto pela liberdade escrito por Alan Moore que ajudou a marcar o início dos anos 1990 como o grande salto da indústria de quadrinhos. Na época, a arte ganhou maturidade e relevância através de obras que ainda hoje se mantêm como algumas das maiores HQs de todos os tempos. V de Vingança é uma delas... e território sagrado!
Escrita em 1982 pelo autor britânico (a popularização e o lançamento por aqui só aconteceram anos mais tarde), a história da obra mostra a Inglaterra sob o controle de um regime tirânico. Nela, as pessoas são vigiadas constantemente pelo aparelho repressor no estilo de 1984, de George Orwell. Neste cenário de opressão surge um anarquista que se apresenta como codinome "V", que se veste com uma capa e máscara que homenageiam Guy Fawkes, um conspirador que tentou explodir o parlamento inglês e destituir o rei James I do trono em 5 de novembro de 1605. V enfrenta o sistema com táticas terroristas e representa a única esperança de liberdade contra o fascismo que impera.
Anunciado no final de 2003, o filme tem produção de Joel Silver (Beijos e tiros) e a dupla Larry & Andy Wachowski (trilogia Matrix), que também assina o roteiro (algo que carregam na pasta antes mesmo de levarem as batalhas de Neo e cia. para as telas). O diretor é James McTeigue, que até então nunca havia feito um filme sozinho, mas tinha no currículo direção de segundas unidades para George Lucas em Star Wars: Episódio III e os dois últimos Matrix. A preocupação vinha justamente do fato de que todos os talentos envolvidos são mais conhecido pelo apreço à pirotecnia, algo que V de Vingança não precisa de forma alguma.
Conforme os meses passaram e a divulgação do filme começou, diversas imagens e vídeos promocionais reforçavam a idéia de que a ação estava sendo privilegiada. Lutas em câmera lenta e facas em "bullet time" (ou o novo termo seria "knife time"?) surgiam nos trailers e clipes, aumentando a preocupação dos fãs. Pelo menos o elenco era bacana: Natalie Portman, no papel principal - a jovem Evey -, escolhe muito bem seus filmes e provavelmente é a melhor atriz de sua geração (Free Zone, Star Wars, Hora de voltar e Perto demais são seus trabalhos mais recentes). Hugo Weaving, que substituiu James Purefoy como o "V", é rosto conhecidíssimo dos fãs de ficção e fantasia, tendo vivido papéis importantes em Matrix e O Senhor dos anéis. Além deles, John Hurt (Hellboy), Tim Pigott-Smith (Johnny English), Sinead Cusack (Beleza roubada) e Stephen Rea (Medopontocombr) engrossavam a produção.
Outro ponto que assustou os apreciadores da nona arte foi uma seqüência na qual milhares de pessoas, vestidas com a máscara e capa de "V" marcham pelas ruas de Londres. A cena não existe no gibi, prenunciando uma sucessão das execráveis "licenças poéticas" que abundam em adaptações do tipo. O prognóstico era negativo...
O resultado
Em novembro de 2003, eu mesmo escrevi aqui no Omelete "será que a adaptação, nas mãos dos supernerds Wachowski, terá uma destino melhor que outras obras de Moore, como Do inferno e Liga dos cavalheiros extraordinários? A resposta só quando a adaptação for lançada".
A tal resposta, felizmente, é surpreendentemente positiva. V de Vingança se tornou um dos blockbusters mais corajosos que vi nos últimos anos. A crítica ao mundo de hoje é ferina e direta, principalmente aos Estados Unidos, chamados de - pasme - "Estados Anûsunidos, um país que tinha tudo mas que tornou-se uma verdadeira colônia de leprosos depois das guerras e intolerância que deflagrou e os vírus que criaram". Forte, não? O endeusamento da figura do terrorista, o codinome V, é outro ponto que não perdeu força alguma. Além disso, os momentos mais chocantes da trama, que antecipavam acontecimentos da História recente (as explosões do metrô de Londres, o 11 de setembro, homens-bomba, etc.) também permanecem intocados e - pode acreditar - chocarão o público nos cinemas.
E os tais knife time? Sim, estão lá. Mas há apenas uma grande seqüência de ação num filme de 2 horas e 12 minutos. E ela é bem empolgante, vale dizer.
Enfim, o que os Wachowski fizeram no roteiro foi torná-lo mais atual, mantendo a essência dos quadrinhos intocada. Grandes mudanças foram feitas em relação à HQ - algo que certamente provocará o ódio dos puristas (dentre eles o próprio Moore) -, mas todas elas são perfeitamente justificáveis. Sai a rádio - A voz de Londres - e entram a TV e a Internet, por exemplo. A desesperada Evey Hammond também ganha um passado, não existe o supercomputador Destino e, claro, há a tal cena com os milhares de londrinos, a mais difícil de engolir. Mesmo ela, porém, pode ser explicada. Na HQ de Moore, o terrorista faz o trabalho sujo e resolve o problema. No filme, os cineastas sugerem algo muito mais poderoso, que o próprio povo deve fazer sua revolução.
Pela abrangência que a mídia traz e a coragem de apontar feridas e rasgá-las, V de Vingança desponta como uma das melhores adaptações de quadrinhos já feitas. Lembre-se do 5 de novembro, mas não esqueça de estar na porta do cinema em 7 de abril!"