Agora, essa versão da Anna Moffo ficou linda. Gostei mais do que da Diana, não sei exatamente porque. Por fim, essa Tatjana me parece ter a voz mais leve dessas que você me mostrou. Típica soprano-lírica, né, muito brilho. Senti mesmo as coloraturas menos firmes.
Também gostei mais da Anna. =P A Tatjana me parece mais lírico-ligeiro que lírico, típico lírico seria a Damrau, com aquele vibrato e lalala. Mas num sei, num conheço a Tatjana. =P
Acho que existe muita diferença em relação a técnica. Me falaram uma vez que quem canta lírico canta popular sem problemas, mas eu acho isso falso. A pessoa acaba ficando com "manias" que são muito difíceis de tirar, como o próprio vibrato. Cantar bossa nova, por exemplo, com vibrato demais fica terrível, né. O mesmo pro formato da boca, impostação, coisas assim.
Também acho falso. Assim, talvez cante sem problemas partindo do princípio de que não forçará a voz, as vogais estarão claras, etc. agora, verificando empostação e vibrato, muda muito.
A Sabah, uma cantora daqui (mas paraense =P), faz canto lírico há anos, e quando enveredou por este caminho do canto popular (porque o marido é especializado nisso e tal - Ney Couteiro), ela diz ter sofrido um pouco pra se adaptar. No início, todos questionavam se ela fazia canto lírico, ela achava péssimo - percebeu que muito se dava pela forma de cantar
lírico a MPB; ela mesma se adaptou, e, se você a ver cantando lírico, não imagina uma voz tão timbrada nos graves no canto popular. Eu amo a voz dela:
Canto popular:
http://www.youtube.com/watch?v=PrNKugS5L3sAgora, dá pra ver que ela tem estudo. =P Num força a voz, nem nada.
O que é colocatura? Eu chuto que é tipo aquela \'\'brincadeira" com as vogais, quando fica repetindo a palavra "alleluja", cantando as vogais de jeitos diferentes, ou não? Confesso que não gosto muito, acho meio irrante, questão de gosto mesmo.
Coloratura "surgiu" ali pelo período barroco, em que instrumentos de sopros e cordas (violinos, violas, etc.) faziam notas rápidas acompanhadas pelos baixos contínuos (baixo, cravo e até cello). Essas notas rápidas já eram a evolução do virtuosismo, como a dinâmica era algo
natural aos músicos, não especificavam coisas como crescendo e diminuindo, piano e forte, etc. nas partituras e, não havia aquela interpretação densa que vemos propriamente a partir do romantismo, o virtuosismo partia da técnica dominativa do instrumento. Daí, compositores, consideraram que poderiam fazer isso no canto (CHATOS! ¬¬), haha. E compuseram músicas com notas rápidas dignas de instrumentos como flautas, violinos, etc. só que, óbvio que no canto elas são muito mais difíceis, pois não exige somente agilidade, mas todo um aparato de precisão técnica; projeção, empostação, vogais e principalmente, respiração e sustentação. Pra você ter uma idéia; cantores deste período, tem-se relatos de que eles vocalizavam por anos antes de partir para o canto propriamente dito, coisa de 8 a 10 anos, por exemplo. Daí, tem-se uma idéia do quão
fácil é fazer coloratura, haha.
Como nos períodos que se seguem, os compositores também amavam judiar dos cantores (Mozart! xD), a coloratura permaneceu por um bom tempo, mesmo que no romantismo ela não seja necessariamente tão usada, ela ainda aparece, ainda que um pouco tímida e contida; varia do gosto do compositor. Digo que gosto de coloraturas, porque admiro a pessoa que faz com precisão; virtuose. Mas, que não é lááá minha
técnica predileta, mas ainda assim adoro. Coloraturas são difíceis sim, e variam da voz; há vozes que soam naturalmente fáceis em coloratura, daí classifica-se "soprano lírico-coloratura", por exemplo (caso da própria Diana Damrau), porém, eu amo músicas que exigem todo aquele aparato de conhecimento associado a sentimento, dignos de Schubert, Benjamin Britten, Duparc, etc. Gosto de todos os períodos, mas não dá pra ouvir só barroco/clássico sem sentir vontade de partir para o pós-romantismo em que a visão relacionada ao canto, mudou tanto. o/
E a mania de algumas cantoras líricas olharem pra cima? Sempre tive curiosidade de saber o porquê. :yay:
E também aquela "tremida" com a boca. Tipo aqui: http://www.youtube.com/watch?v=n8g6Tqqc6DQ, dá pra ver bem no "ó" dela. Essas coisas são parte da técnica ou são vícios?
HAUHAUAHUAHUA xD
Num é que é mania, Nani, é que no canto lírico não há aquela interação com o público como no canto popular (salvo músicas que narram histórias e outras coisinhas, claro). No canto erudito, você praticamente veste um personagem e só se despe dele quando a música acaba (palmas) ou até a ópera, dependendo do caso. Quanto cantei "V\'adoro" tive que imaginar um César na minha frente e ficar olhando só pra ele - e olha que nem interpretei como queria, ainda. E gente, desculpa dar exemplos partindo de "mim" o tempo todo, é que uso isso até pra me auto-avaliar e reavaliar a peça/tradução, hauhaua. Mais um xD:
Por exemplo: na música que estou fazendo, uma canzonetta, é uma personagem adolescente apaixonada por um rapaz, que está tendo crises devido a tal paixonite; na dúvida se confessa ou não seu amor ao moço, "será que ele vai rir de mim?", "quanto o vejo me derreto toda e sonho com seus beijos", lala. Tipo, eu, tenho de personificar uma adolescente inocente (por volta dos 15 anos - naquele período era
inocente, viu? xD - Stefano Donaudi, compositor) e sonhadora. Se eu visto este personagem, concorda que o público é um mero "público" na minha apresentação? Que posso olhar pra ele, mas não necessariamente, que ele esteja ali? Ou ele faz parte da minha
peça (música)? Posso personificar a tal adolescente, olhar para alguém como que "imaginando ele", mas por puro teatro, enfim. Tu tinhas que ter visto meu colega cantando "Cobra Grande", de Waldemar Henrique pra ver a interpretação dele; parecia que a cobra tava ali na sala pra pegar agente de fato, haha. Logo, varia da música, do personagem a que se propõe a fazer; o cantor também é um compositor, ele pode dar uma nova visão a uma peça que é cantada a 500 anos devido a sua interpretação. E, isso tá mais ligado a árias e músicas que tratam de um personagem, em canção/canzonettas, você basicamente não
interpreta corporalmente falando, tanto quanto numa ária, mas a idéia é a mesma, enfim.
E, não é certo tremer
os beice! A Charlotte não é exemplo pra se tirar, ela prende as vogais no queixo. Crianças com tanta musicalidade como ela, são basicamente exploradas quando algum empresário descobre, daí, pra se cantar músicas pelo instinto como as que ela canta, o professor (ou seilá o que) acaba introduzindo "meios" de se fazer tais notas,
técnicas para se conseguir um vibrato, etc. Isso é terrível. Sei o quanto é difícil tirar algo que se aprendeu a fazer errado ou, alguma mania que adquiriu - passo por isso sempre. Mas, Charlotte, tem voz linda, porém, não é canto-lírico, Nani, como bem disse a Persé. =*
E (tô acabando, juro) qual a diferença entre horizontal/vertical e entre cantar de peito ou de cabeça?
Eita, isso sempre é complicado de entender, ainda estou em processo, idem. xD
Eu sei a diferença porque sinto, no canto, quanto minha voz soa no peito e quanto tá na cabeça. Mas, não é porque tá na cabeça que deixa de soar no peito, tipo; tem como você ter um desgaste vocal enorme e correr risco de calos vocais (e até perder sua voz) mesmo cantando lírico, que, de acordo com o que dizem muitos, não utiliza de "garganta", quase que mentirinha que não usa a "garganta". =P
A voz do peito geralmente é a nossa voz natural, a da fala (e, porque "geralmente"; porque tem gente que conversa empostado na cabeça naturalmente, tenho uma colega e professora aqui que são assim - magina a dificuldade que essa colega minha tá tendo pra sentir essa tal "voz de peito"...), que você usa pra conversar no seu dia-a-dia (e, muita gente também fala errado; diz que aprender a cantar, também é aprender a falar), é ar, mas nota-se nitidamente a adução das pregas vocais, mais que na voz de cabeça. A voz de cabeça, "praticamente", é uma voz que utiliza muito mais de ar (e controle do mesmo) do que da fisiologia do seu organismo, como também de empostação no fundo do palato mole (há controversas). Ambas exigem ressonância de peito, a diferença está que ao cantar, você sente uma mais embaixo (o peito "treme", haha) e a outra você sente na cabeça (na testa, no palato-mole, no ouvido, no nariz), daí a diferenciação. Ambas precisam de ar e empostação, ambas se utilizam da fisiologia/anatomina, ambas baseiam-se na respiração diafragmática, ambas saem pela boca, e ambas não
estragam a garganta. O canto é algo maravilhoso, Nani, ainda tenho muito o que aprender; se lhe disser que sou intrusa num departamento de medicina da PUC (desde semana retrasada xD - amigos, são tudo! Haha), onde há cadáveres e peças pra se estudar anatomia/fisiologia, não repara; é porque tenho muito o que aprender sobre, viu. Logo, não tome isso aí dito acima como verdade absoluta.
Sempre achei que cantar lírico fosse como cantar mais fechado e popular mais aberto. Procede falar assim?
Basicamente, a grosso-modo, sim. Persé disse bem. o/
Gostei também dos videos da Anne Sofie von Otter (Carmem). Procurei tradução e não achei, vocês tem? Não sei nada de francês. ;x
Sou aprendiz de francês, haha (mas, três meses de aula, calma! xD).
Não tenho a tradução específica, Nani (aaa, é da Habanera ou Gympy Song?
Habanera:
http://www.youtube.com/watch?v=JK0G3cfwY3cGypsy Song:
http://www.youtube.com/watch?v=M72DzFwlkDg )
Mas sei um pouco da personagem: é praticamente, uma
prostituta, que brinca com o amor dos homens - um, em específico, o personagem principal. Carmen é então, mulher que valoriza amores e paixões, mas não se apega a eles, tem uma vida de festas e danças, livre de conceitos morais. Me diz qual é a que você mais gostou que posso dar uma fuçada e achar a tradução (ou até falar com meu professor, enfim =D).
Mas o que eu gosto/gostei mesmo é de Celtic Woman (já tinha ouvido) e do video de Memory. Isso é belting? Esse tipo de canto eu acho lindo (é mais \'\'aberto"). *-*
Memory com a Elaine Paige é belting, as meninas do Celtic, tem uma que é belting sim (a esposa do regente/pianista - ela canta a música tema do filme LOTR, May It Be, da Enya), quanto as outras, elas mesclam entre técnicas do canto lírico, belting e algo meio próprio da cultura, acho.
PS: Devo confundir quando canto liríco é ópera ou não, mas enfim.
É resumidamente o que a Persé disse mesmo: ópera é a cena cantada (peça, dramatização, etc.) e canto lírico, é a técnica do canto (que também é utilizado em ópera).
Tem também a diferença de musical pra ópera, que não se dá pelo canto lírico x belting, mas pela dramatização (enredo). POTO (Phantom Of The Opera) é uma ópera contemporânea de acordo com estudiosos, e não musical - pois musical, as músicas são independentes, e em ópera, basicamente, não. Por exemplo: o famoso dueto de POTO, All I Ask Of You, tem "Cristine" no meio da música, se você ouvisse essa música assim, do nada, entenderia seu contexto real sem olhar somente pelo fator romântico da peça? Tipo, porque "Cristine"? Quem é ela, o que faz, em que contexto a música está inserida? Agora, se ouvir Memory, ela sim, tem uma letra linda e uma gata desprezada a canta, mas dá pra você entender o que diz a música e ela não depende de um contexto narrativo tanto quanto All I Ask Of You.
Ópera, então, pode-se cantar árias dela, mas estas árias só serão realmente compreendidas se inseridas no enredo, você saberá muito melhor do que se trata se assistir a ópera.
E eu amo ópera, ai meu pai. Nani, acho que você pode ter mais contato com isso, porque uma vez lá dentro, tá perdida. xD Agora, convenhamos; ao menos aqui (Goiânia/Brasil), é praticamente impossível tanto contato assim. E ópera pode ter graça num vídeo, mas nem se compara com assistir ao vivo, gente, juro! Vi POTO e Cosi Fan Tutti ao vivo, e mesmo que esta última nem estava tão bem amadurecida (e foi cansativa demais por isso), ainda assim, o show ao vivo tem lá seu ingrediente adicional.