(...) porque uma mudança sempre deixa lançada a base para a ereção de outra.
Capítulo II.
(...) deve fazer como os arqueiros hábeis que, considerando muito distante o ponto que desejam atingir e sabendo até onde vai a capacidade de seu arco, fazem mira bem mais alto que o local visado, não para alcançar com sua flexa tanta altura, mas para poder com o auxílio de tão elevada mira atingir o seu alvo.
Capítulo VI.
(...) Mas consideremos Ciro e os outros que conquistaram ou fundaram reinos: achareis a todos admiráveis. E se forem consideradas suas ações e ordens particulares, estas parecerão não discrepantes daquelas de Moisés que teve tão grande receptor (Deus). E, examinando as ações e a vida dos mesmos, não se vê que eles tivessem algo de sorte senão a ocasião, que lhes forneceu meios para poder adaptar as coisas da forma que melhor lhes aprouve; e, sem aquela oportunidade, o seu valor pessoal ter-se-ia apagado e sem essa virtude a ocasião teria surgido em vão.
Capítulo VI.
Estávamos, eu e uns amigos, discutindo no mesmo dia antes d\'eu ler isso, que, não dá para separar o lado profissional do pessoal; eles são convergentes. =P Fora que sempre existirá o pré-determinado coexistindo com o mérito real. Bah, eu amo Maquiavel. xD Tem mais coisas legais a se tirar desse livro fantástico dele. ^^
Aaa, sim, com atraso mas ainda em tempo: todos estes trechos foram tirados do livro O Príncipe, Maquiavel.
...
(adoro o diálogo abaixo, dá para fazer uma análise bacana; não consegui resumir ou captar uma única frase sem desmerer o conteúdo... =x)
- Mas o valor não reside na vontade particular - retorqüiu o Selvagem - Ele provém da estima e da dignidade, tão preciosas para aquele que sabe apreciá-las.
- Vamos, vamos - protestou Mustafá Mond - isso é ir um pouco longe, não lhe parece?
- Se o senhor deixasse ir o seu pensamento até Deus, não se deixaria degradar por vícios amáveis. Teria uma razão para suportar pacientemente as coisas, para fazer as coisas com coragem! Vi isso entre os índios.
- Acredito - disse Mustafá Mond. - Mas também não somos índios. Um homem civilizado não tem nenhuma necessidade de suportar seja o que for seriamente desagradável. E quanto a fazer as coisas, Ford o guarde de ter jamais tal idéia na cabeça! Toda a ordem social seria desorganizada se os homens começassem a fazer coisas por iniciativa própria.
- É a renúncia, então? Se tivessem um Deus, teriam uma razão para a renuncia.
- Mas a civilização industrial só é possível quando não há renúncias. O gozo até aos limites extremos impostos pela higiene e pelas leis económicas. Sem isso, as rodas deixariam de girar.
- Teriam um motivo de castidade! - disse o Selvagem, corando ligeiramente ao pronunciar estas palavras.
- Mas quem diz castidade diz paixão; quem diz castidade, diz neurastenia. E a paixão e a neurastenia são a instabilidade. E a instabilidade é o fim da civilização. Não se pode ter uma civilização durável sem uma boa quantidade de vícios amáveis.
- Mas Deus é a razão de ser de tudo quanto é nobre, belo, heróico. Se tivesse um Deus...
- Meu caro amigo - disse Mustafá Mond -, a civilização não tem a menor necessidade de nobreza ou de heroísmo. Essas coisas são sintomas de incapacidade política. Numa sociedade convenientemente organizada como a nossa, ninguem tem oportunidade de ser nobre ou heróico. É necessário que as coisas se tornem essencialmente instáveis para que semelhante ocasião se possa apresentar. Onde houver guerras, onde houver juramentos de fidelidade múltiplos e dívididos, onde houver tentações às quais é necessário resistir, objectos de amor pelos quais é preciso lutar ou que é preciso defender, aí, manifestamente, a nobreza e o heroísmo têm um sentido. Mas hoje já não há guerra. Toma-se o maior cuidado para evitar amar exageradamente seja quem for. Não há nada que se assemelhe a um juramento de fidelidade múltipla, está-se de tal modo condicionado, que ninguém pode deixar de fazer o que tem a fazer. E se aquilo que há a fazer é, no conjunto, tão agradável, deixa-se uma tão grande margem a um tão grande número de impulsos naturais que não há verdadeiramente tentações a que seja necessário resistir. E se alguma vez, por qualquer infelicidade, acontece, por esta ou aquela razão, algo de desagradável, pois bem, há sempre o soma para permitir uma fuga da realidade, há sempre o soma para acalmar a cólera, para fazer a reconciliação com os inimigos, para dar paciência e para ajudar a suportar os dissabores. Outrora não se podiam conseguir todas estas coisas senão com grande esforço e depois de anos de penoso treino moral. Agora tomam-se dois ou três comprimidos de meio grama, e é tudo. Pode-se trazer connosco, num frasco, pelo menos metade da própria moralidade. O cristianismo sem lágrimas, eis o que é o soma.
- Mas as lágrimas são necessárias. Não se lembra do que disse Othello? "Se depois de qualquer tempestade nascem tais calmarias, então que soprem os ventos até acordarem a morte!" Há uma história que nos contava um velho índio a propósito da filha de Matsaki. Os jovens que desejavam desposá-la deviam passar uma manhã a mondar com uma enxada. Isto parecia fácil; mas havia moscas e mosquitos encantados. Na maioria, os jovens eram absolutamente incapazes de suportar as picadelas. Mas aquele que fosse capaz obtinha a rapariga.
- Encantador! Mas nos países civilizados -,disse o Adminístrador - podemos ter as raparigas sem mondar para elas com uma enxada, e não há moscas nem mosquitos que nos piquem. Há séculos que nos livramos completamente deles.
O Selvagem fez com a cabeça um sinal de aquiescência e franziu os sobrolhos.
- Livraram-se deles. Sím, é bem a vossa maneira de agir. Livrarem-se de tudo o que é desagradável, em vez de procurarem acomodar-se. Saber que é mais nobre para a alma sofrer os golpes e as flechas da fortuna adversa ou pegar em armas contra um oceano de desgraças e, fazendo-lhe frente, destruí-las... Mas não fazem uma coisa nem outra. Vocês não sofrem nem enfrentam. Suprimem apenas os golpes e as flechas. É demasiado fácil.
Calou-se repentinamente, pensando em sua mãe. No seu quarto do trigésimo sétimo andar, Linda flutuara num mar de luzes cantantes e de carícias perfumadas; partira flutuando fora do espaço, fora do tempo, fora da prisão das suas recordações, dos seus hábitos, do seu corpo envelhecido e inchado. E Tomakin, ex-Director da Incubação e do Condicionamento, Tomakin pusera-se em fuga, evadído da humilhação e da dor, num mundo onde não podia ouvir aquelas palavras, aquele riso escarninho, onde não podia ver aquele rosto hediondo, sentir aqueles braços húmidos e flácidos em volta do pescoço, entrara num mundo de esplendor.
- O que lhes falta - continuou o Selvagem - é, pelo contrário, qualquer coisa que comporte lágrimas, que sirva como compensação. Nada se compra bastante caro, aqui.
(...)
- Mas os inconvenientes agradam-me.
- Mas não a nós - volveu o Administrador - Nós preferimos fazer as coisas com todo o conforto.
- Mas eu não quero conforto. Quero Deus, quero a poesia, quero o autêntico perigo, quero a liberdade, quero a bondade, quero o pecado.
- Em suma - disse Mustafá Mond -, você reclama o direito de ser infeliz.
- Pois bem, seja assim! - respondeu o Selvagem em tom de desafio - Reclamo o direito de ser infeliz.
- Sem falar no direito de envelhecer, de ficar feio e impotente, no direito de ter a sífilis e o cancro, no direito de não ter de comer, no direito de ter piolhos, no direito de viver no temor constante do que poderá acontecer amanhã, no direito de apanhar a febre tifóide, no direito de ser torturado por indizíveis dores de todas as espécies.
Estabeleceu-se um longo silêncio.
- Reclamo-os a todos - disse, por fim, o Selvagem. Mustafá Mond encolheu os ombros.
- Oferecemos-lhos da melhor vontade - respondeu.
Capítulo XVII
Admirável Mundo Novo, Aldous Huxley.
(os três capítulos finais deste livro são maravilhosos =O)